A indústria global de fornecedores automotivos entrou em uma nova fase estrutural, marcada por crescimento moderado, transformação tecnológica e mudanças na distribuição de valor ao longo da cadeia produtiva. A conclusão faz parte do estudo “The 2026 Global Automotive Supplier”, divulgado pelo Boston Consulting Group (BCG).
Segundo o levantamento, o valor global dos componentes automotivos deverá crescer cerca de 3,5% ao ano até 2035. Apesar da expansão prevista, o setor passa por uma reconfiguração impulsionada pelo avanço dos veículos eletrificados, do software automotivo e dos sistemas avançados de assistência ao motorista (ADAS), segmentos que devem registrar crescimento em taxas de dois dígitos nos próximos anos.
Ao mesmo tempo, componentes ligados aos motores de combustão interna seguem enfrentando um processo de retração estrutural, refletindo as mudanças tecnológicas que vêm remodelando a indústria automotiva global.
Estudo aponta desafios para fornecedores automotivos
A pesquisa do BCG mostra que executivos do setor continuam preocupados com fatores que afetam a rentabilidade das empresas. Entre os principais desafios estão a pressão sobre as margens, o aumento dos custos operacionais e a incerteza em relação ao ritmo de crescimento da demanda por veículos elétricos.
Apesar desse cenário, o estudo identifica uma mudança de postura entre os líderes da indústria, que passaram a priorizar uma gestão mais disciplinada dos investimentos e uma estratégia de crescimento mais seletiva.
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Setor vive transformação estrutural
De acordo com o BCG, a indústria deixou para trás uma dinâmica baseada em crises cíclicas e passou a operar em um ambiente de maior complexidade.
A eficiência operacional voltou a ocupar posição central na estratégia das empresas, acompanhada de investimentos direcionados para tecnologias consideradas de maior potencial de crescimento.
Como os fornecedores estão se adaptando?
Segundo Masao Ukon, líder da prática automotiva do BCG na América do Sul, as empresas estão revisando seus portfólios para concentrar recursos em áreas com maior potencial de geração de valor.
“Houve uma mudança de postura. Em vez de expansão ampla, muitos fornecedores estão revisando seus portfólios, reduzindo exposição a segmentos de menor retorno e concentrando investimentos em áreas com maior potencial de criação de valor”, comenta Masao Ukon.
O estudo aponta ainda que as empresas mais avançadas nesse processo apresentam maior confiança em suas perspectivas de crescimento e desempenho financeiro.
Cinco estratégias para a próxima década
Para os fornecedores que buscam reposicionamento no mercado automotivo global, o BCG identifica cinco frentes prioritárias de atuação:
Reestruturação e tecnologia
- Reestruturar a base de custos e rentabilidade;
- Construir cadeias de suprimento mais resilientes e regionalizadas;
- Redirecionar investimentos para áreas de alto crescimento;
- Incorporar inteligência artificial nas operações;
- Transformar competências e modelos organizacionais.
Brasil pode ganhar espaço na nova configuração da indústria
Na avaliação do BCG, o mercado brasileiro apresenta características próprias diante da transição tecnológica global. A adoção de novas tecnologias ocorre de forma gradual, com a convivência entre motores a combustão, veículos híbridos, modelos eletrificados e o uso em larga escala de biocombustíveis.
Esse ambiente exige maior capacidade de adaptação dos fornecedores e abre espaço para diferentes estratégias de atuação.
“Vemos uma janela clara de oportunidade para o país. Em um cenário de crescimento moderado, ganhos de eficiência operacional e apostas focadas em tecnologia tendem a ser ainda mais relevantes. Por isso, fornecedores que combinarem eficiência operacional com posicionamento em tecnologias do futuro – como eletrônica embarcada, software e soluções para veículos híbridos e biocombustíveis –, poderão capturar uma parcela relevante do novo valor gerado na cadeia automotiva global”, afirma Ukon.
Cadeia de suprimentos ganha importância estratégica
O estudo também destaca que a resiliência das cadeias de suprimentos e a regionalização das operações passam a ser fatores fundamentais para a competitividade da indústria.
Segundo Ukon, a capacidade de adaptação e a correta alocação de capital serão determinantes para os fornecedores enfrentarem os desafios da próxima década.
“O Brasil pode se beneficiar desse movimento, desde que haja coordenação entre indústria, montadoras e políticas públicas”, conclui o especialista.
O levantamento do BCG reforça que a transformação da indústria automotiva não está mais restrita à eletrificação dos veículos. O movimento envolve mudanças na estrutura produtiva, na distribuição de valor da cadeia e nas estratégias adotadas pelos fornecedores para permanecer competitivos em um mercado em constante evolução.


